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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Ensino Superior na visao de Simon Schwartzman

O ensino superior na visão
de Simon Schwartzman
20/07/2012 - 16:20
Fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2012/07/20/o-ensino-superior-na-visao-de-simon-schwartzman
Texto
Manuel Alves Filho
Imagens
Antoninho Perri
Edição de Imagens
Everaldo Silva







O sociólogo Simon Schwartzman





Integrante do time de intelectuais e especialistas reunidos para as atividades da 1ª Escola Zeferino Vaz de Educação Superior (eZVes), o sociólogo Simon Schwartzman demonstrou, mais uma vez, estar na ponta de lança do pensamento crítico acerca dos problemas enfrentados pelo ensino superior, notadamente o brasileiro. 

Na entrevista que segue, concedida ao Portal da Unicamp no intervalo entre duas conferências do evento, o atual diretor do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS) falou sobre diversos assuntos, entre eles o possível fim da gratuidade no ensino público. 

Segundo ele, o atual modelo de financiamento se tornará inviável em médio prazo. “Eu sou defensor da cobrança pela educação, mas entendo que esse modelo tem que vir associado de mecanismos de concessão de bolsas ou de financiamento àqueles que querem estudar, mas não dispõem de recursos”, afirmou. E advertiu também: internacionalização não é um jogo para todos.

Para saber mais, clique em Mais informações, abaixo.



Como o senhor vê a questão da ampliação do acesso ao ensino superior no Brasil?
Nós últimos anos, tem ocorrido um aumento no número de matrículas no ensino superior. Gradativamente, a população tem ficado mais educada, mas temos duas barreiras que continuam limitando o crescimento do sistema. A dimensão do ensino médio ainda está longe do ideal, bem como a sua qualidade, que em boa parte é precária. A quantidade de pessoas capacitadas para entrar no ensino superior é pequena. Além disso, o Brasil não criou um sistema diferenciado de educação pós-secundária, como fez o Chile, que tem segmentos de ensino profissional e técnico, o que dá mais possibilidade de atendimento e de formação da população. Aqui, ou você faz a universidade convencional ou não tem alternativa.

Um tema muito discutido na Escola Zeferino Vaz foi o financiamento da universidade pública. Vários especialistas apontaram para o fim da gratuidade do ensino público. Trata-se de uma tendência irreversível?
Exceto em alguns países do Norte da Europa, considerados ricos, a discussão em torno do fim da gratuidade no ensino público vem se dando em todo o mundo. A tendência tem sido a de cobrar de pela educação, seja no momento em que se está fazendo o curso, seja depois, de forma a reduzir os custos. Eu sou defensor da cobrança, mas entendo que esse modelo tem que vir associado de mecanismos de concessão de bolsas ou de financiamento àqueles que querem estudar, mas não dispõem de recursos.

O senhor vê condições políticas para que essa mudança seja processada neste momento?
Não vejo condição política para isso ocorra atualmente. Nenhum partido político tem levantando essa discussão, nem mesmo os de oposição Por outro lado, vivemos uma situação em que o sistema federal está paralisado. O governo ofereceu um aumento salarial aos professores, que foi recusado pela categoria. Esse sistema é inviável em médio prazo. Os custos vão aumentando, enquanto a qualidade segue sendo muito desigual. Algumas instituições não justificam o que custam. A sociedade está pagando um preço crescente. O governo está consciente de que não pode colocar cada vez mais dinheiro nas universidades, pois precisa atender a outras demandas importantes. Assim como o sistema federal, o sistema paulista de educação superior também é inviável. O governo paulista não poderá continuar destinando cerca de 10% do ICMS para as universidades estaduais, que não chegam a atender 10% da demanda pelo ensino superior do Estado. Se no país 75% dos estudantes do ensino superior estão nas universidades particulares, em São Paulo esse índice alcança 90%. Em algum momento, a população vai perguntar o que está sendo feito com os 10% do ICMS que saem do bolso dela. A USP e a Unicamp estão bem nos rankings internacionais, mas o cidadão comum se pergunta: “e eu com isso?”.

O senhor acredita que a mudança no modelo de financiamento trará impactos positivos para a qualidade e contribuirá para ampliar o acesso ao ensino superior?
Com a mudança no financiamento, vai haver mais recursos para serem aplicados em salários, equipamentos etc. A tendência é que haja melhora na qualidade da educação. Já a questão do acesso, como disse, tem que ser lidada com a criação de financiamento ou subsídio para quem necessita. Você não pode criar um sistema no qual as pessoas que querem estudar não o façam porque não têm dinheiro. Isso é inadmissível. Ou seja, é preciso cobrar pela educação, mas também é preciso contemplar aqueles que querem estudar, mas não podem pagar.

Para alguns setores, esse é um tema dogmático, não?
Sim, para alguns segmentos o tema é dogmático, mas cada vez mais outros segmentos, que não estão na universidade, começam a ver isso. Esta situação de greve nas universidades federais, por exemplo, está incomodando todo mundo. Os alunos estão perdendo tempo; não estão conseguindo de formar. Em algum momento essa situação terá que ser enfrentada. Como o governo não pode oferecer subsídios indefinidamente, ele vai ter que pensar em outra maneira de lidar com a questão.

Muito se tem falado sobre a necessidade de as universidades se internacionalizarem. Esse é um jogo para todos? Se não, como identificar as instituições vocacionadas para se tornarem escolas de classe mundial?
Alguns países, como Alemanha, fazem avaliação interna e decidem concentrar recursos nas instituições que possam jogar esse jogo. Evidentemente, não é para todo mundo. É uma posição que cada instituição pode até pretender, mas cabe o governo, federal ou estadual, identificar aquelas que têm condições para se transformar em instituição de classe mundial. É para estas que são concedidos os instrumentos legais e financeiros para que possam subir de patamar.

E que papel deve caber àquelas universidades que não disputarão esse jogo internacional?
O exemplo americano é bom. Os Estados Unidos têm 3 mil universidades, mas somente 300 fazem pesquisas. As outras são de formação. O país tem escolas de quatro anos, de dois anos e as que foram professores, para ficar em três exemplos. Nesse sistema de ensino superior, a grande maioria das pessoas vai adquirir uma formação profissional ou uma formação mais geral para a sua vida. Ou seja, grande parte das instituições não é de pesquisa e nem atua em nível mundial. As instituições têm que ter qualidade naquilo que elas se propõem a fazer. É possível, por exemplo, ter uma pequena universidade que atende alunos com baixa formação, mas que consegue fazer com que eles ampliem o conhecimento e se qualifiquem melhor. Ela não precisa fazer pesquisa e nem competir internacionalmente para realizar um trabalho que traga benefícios para a sociedade. Nem todo mundo precisa estar na ponta.

O que o senhor pensa sobre o programa Ciência sem Fronteiras?
A ideia é boa, mas tudo indica que as ações foram precipitadas A ênfase dada foi para cursos muito curtos de graduação. Para o aluno, é muito bom ir para o exterior por oito meses ou um ano. Do ponto de vista do aproveitamento acadêmico, porém, talvez não seja tão bom assim. Esse estudante vai levar pelo menos seis meses para poder entender onde ele está. Quando começar a aproveitar a experiência, já estará na hora de retornar. A ênfase que deveria ter sido dada é na formação de alto nível, sobretudo doutorado, que é a formação completa.
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