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terça-feira, 14 de abril de 2015

O fado portugues como origem a partir dos escravos negros levados para Portugal

OS NEGROS NA CULTURA POPULAR PORTUGUESA 
O fado português como origem a partir  dos escravos negros levados para Portugal


Por Carlos Cardoso 


No “Álbum de Costumes Portugueses”, de 1887, Júlio Cesar Machado e Fialho de Almeida descrevem três figuras 

1-“O Preto Caiador”, 














2- A“Preta do Mexilhão” 

e o 
3- “Preto de S. Jorge”, 



perante estas figuras e conhecendo um pouco da história da escravatura em Portugal, questionei-me sobre a influência destes africanos arrancados às suas nações na nossa cultura popular. 

Uma outra influência é na origem do fado, que parece despontar da imensa popularidade nos séculos XVIII e XIX, e da sua síntese popular com outros gêneros afins, como o Lundu, um gênero musical proveniente de Angola.

Para entendermos se existem eventuais influencias, é necessário conhecer um pouco da história da escravatura, pois era essa a condição da maioria desses negros. 

Desde as suas origens, Portugal conhecia o regime da escravidão, não apenas devido à norma de transformar os mouros vencidos na guerra em cativos ou servos, mas através de relações de comércio com mercadores árabes ou mesmo pela ação de pirataria realizada diretamente pelos seus navios na região do Mediterrâneo fronteira ao Norte de África. 


Havia desde meados do século XIV postos de venda de cativos na Rua Nova de Lisboa, onde se comerciavam peças trazidas inclusive de Sevilha – que em Castela funcionava como entreposto – e, segundo um documento encontrado pelo pesquisador no Convento de Chelas, uma das freiras desta casa lá comprara por 150 libras em 1368 a um mercador sevilhano uma jovem moura de pele branca chamada Moreima. 


Através das trocas comerciais os portugueses entraram em contato mais íntimo com negros africanos das regiões denominadas pelos mouros de bailad-as-Sudan, o além-Sara para o sul, habitado pelos negros islamizados do Sudão, e das áreas ocidentais vizinhas dos rios Níger e Senegal, ao norte do Equador. 

As primeiras remessas de negros da Guiné para Portugal na segunda metade do século XV. 

As consecutivas tentativas de conquista resultam sempre no sequestro de numerosos “inimigos”, não fosse talvez esse o verdadeiro propósito. 

Foram escravos idos das Ilhas Canárias que proporcionaram um núcleo econômico rentável na ilha da Madeira através da extração de madeira e produção de açúcar de cana. 


De notar que as bulas Dum Diversus e Divino Amore Communiti, de 18 de Junho de 1452, que autorizavam o direito de filhar pagãos e reduzi-los à escravidão, haviam sido concedidas pelo papa Nicolau V em concordância com os argumentos dos portugueses que alegavam despesas com as navegações, assegurando a exploração tranquila da mão-de-obra escrava em esquemas de produção agrícola para exportação. 

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Uma das dificuldades de determinação do número de escravos negros africanos que entraram em Portugal desde o início do século XV é o fato ser empregado invariavelmente o termo negro para designar, de forma genérica, todos os tipos raciais de pele morena com quem se relacionavam. 

Como resultado de um longo processo de observação, o povo passou a denominar o tipo de negro de pele mais escura com o nome da cor que por comparação lhe correspondia na linguagem comum, ou seja, a preta. 

A partir de então, um negro cuja pele fosse tão escura que lembrasse a cor preta começou a ser chamado homem preto e logo, por economia, preto.

 O termo negro continuaria a constituir, oficialmente, o nome genérico para a gente das mais variadas graduações de cor de pele, a partir do amorenado ou pardo até os tons mais fechados, mas, para o povo em geral, o negro mais caracteristicamente africano passaria a ser sempre o preto. 

Ainda assim, estima-se que o número de escravos em Portugal era bastante elevado. 

Em 1551 a capital lusitana teria cerca de 100.00 habitantes, dos quais 9.900 eram escravos, ou seja 9,9% da população. 

Ao longo dos sec. XVI e XVII a mão-de-obra escrava representava já 10% da população total do Algarve e Alentejo e também era visível no Norte de Portugal e em outras regiões. 

O motivo da substituição do jornaleiro livre pelos escravos, não poderia ser a falta de gente em Portugal mas sim, o regime da grande propriedade, do latifúndio, que imperava no Alentejo e se arrastaria por centenas de anos. 

A utilização incessante dessa mão-de-obra, de meados do século XV até à segunda metade do século XVII, fixou-se e estabilizou-se em certas áreas do mundo agrícola, declinando, porém, no século XVIII, em virtude da gradual redução no ritmo da substituição desse tipo específico de trabalho. 


Mas, mesmo em declínio, não cessou de existir, alimentada pela circunstância cruel de o filho de escravos herdar a condição dos pais, e, assim, quando em 1761 o Alvará de 19 de Setembro, providenciado pelo marquês de Pombal, determina o fim da entrada de escravos em Portugal, apenas nas províncias a sul do Tejo ainda trabalham nos campos 4.000 a 5.000 escravos. 


O próprio texto do Alvará de Libertação demonstra que foram as razões de ordem econômica responsáveis pela extinção do trabalho escravo na agricultura portuguesa: com a exploração do ouro brasileiro das Minas Gerais a exigir cada vez maior número de escravos, o desvio desse tipo de mão-de-obra para território português constituía um desfalque na conquista da riqueza mais rápida, pela via colonial. 


O poder real foi obrigado a reiterar o Alvará de 12 anos depois, porque muitos proprietários de escravos, não desejando perder o capital aplicado na compra das suas máquinas de produzir trabalho, continuavam a explorá-las clandestinamente.


 “Preta do Mexilhão” De fato os escravos foram usados pelos portugueses como fornecedores de força de trabalho 

em empresas agro-industriais (caso da fabricação de açúcar nas ilhas atlânticas); 

como trabalhadores em obras públicas (desbravamento de matas, aterro de pântanos e construção de prédios);

 em serviços de bordo em navios;

 trabalhos portuários de carga e descarga;

 como remadores de galés e barcos de transporte;

 vendedores de água (negras do pote) e de peixe;

 como vendedores ambulantes de carvão;

 em serviços públicos municipais (remoção dos dejetos domiciliares pelas chamadas negras de canastras);

 como artesãos (mesteirais); 

como negros de ganho nas ruas (ao serviço de senhores particulares);

 como trabalhadores em lagares de azeite (onde chegavam a mestres); 

e, ainda, «na cultivação do campo e no serviço ordinário», 

tal como informaria em 1655 o padre Manuel Severim de Faria nas suas Notícias de Portugal, admirado com o número de escravos empregados na «cultivação da terra» e nos serviços domésticos

 (atividade em que realmente predominavam e serviam em maior número nas cidades, principalmente em Lisboa). 

“O Preto Caiador” A partir do século XVI, surgiram em Lisboa e noutras cidades e vilas da província, principalmente no Alentejo, confrarias de negros africanos com propósitos religiosos dedicadas a São Jorge ou Nª Srª do Rosário, disfarçando em aparente conversão os seus cultos africanos. 


O convento de São Domingos, dos dominicanos, em Lisboa, era frequentado por uma confraria de negros: – Confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Lisboa. 


Dessa forma conseguiam preservar-se de acusações de heresia, a constituição de fundos destinados a compra de alforria e a participação na vida social paralelas às dos brancos, em vários aspetos da atividade comunitária. 

Em “Álbum de Costumes Portugueses”, Fialho de Almeida descreve o “Preto de S. Jorge”, como membro de uma confraria que teria direito a incorporar a procissão do CORPUS CHRISTI, com os demais ofícios. 

Descreve ainda a honra que estes homens tinham na sua pertença à confraria, sendo a cor da pele o principal ditame, teria de ser do mais retinto ébano e quando uma degenerada geração saia mulata engraxava-se a pele. “Preto de S.Jorge” 

Como já foi referido anteriormente, esta mão-de-obra escrava foi muito utilizada na agricultura sobretudo a sul do Tejo. 


Remanescências dessa presença foram relatados por José Leite de Vasconcelos em Etnografia Portuguesa, Livro II.


 «Ultimamente tive ocasião de ver alguns exemplares dos mesmos Mulatos (…). 
Eles próprios dizem que são atravessadiços, isto é, “mestiços”, em sentido geral. 
A cor varia: há indivíduos que são, por assim dizer, pálidos ou morenos, e outros muito foscos, quase pretos (…). 
Os vizinhos chamavam dantes a esta gente Pretos do Sado ou Pretos de São Romão, porque havia lá realmente muitos pretos. “São Romão era uma ilha de Pretos”, ouvi referir a vários mulatos; ou “algum tempo havia lá muito preto encarapinhado”. 

Ainda hoje se usa Preto como alcunha ou apelido: “Fulano Preto, Fulana José Preta”!

Pouco a pouco a raça vai-se diluindo no grosso da população circunvizinha (…). 
Pena é que não se descobrisse ainda algum documento que nos esclarecesse acerca da data em que na Ribeira do Sado se fixou a raça africana (“raça negra”) cujos descendentes estão diante de nós.» 

De fato, nas povoações das margens do rio Sado é fácil identificar traços negroides nalguns moradores: cabelo encarapinhado, pele morena, lábios grossos, nariz largo … 

De fato, em Alcácer do Sal, nas povoações de São Romão de Sadão e Rio de Moinhos, é bem conhecida a existência dos “Pretos de S. Romão” que, fruto da miscigenação, se misturaram com a população branca e foram gradualmente perdendo as suas características africanas. 

Tal como se perdeu a memória da razão da sua fixação desta população. 

Julga-se que seria um colonato de escravos, ai estabelecido por serem supostamente imunes ao paludismo, localmente conhecido por febre terçã ou sezões, um mal endêmico, pois a região, durante séculos um território desabitado, tinha a fama de insalubridade e era rodeada de charnecas e gândaras. 


De qualquer modo, passados muitos séculos, a memória popular, sempre curta para guardar fatos históricos, apenas fez perdurar a lenda da “Ilha de Pretos” e as cantigas que ainda hoje ecoam ao ritmo do Ladrão: 

Quem quezer ver moças
Da cor do carvão, 
Vá dar um passeio 
Até S. Romão. 

Veja o nosso Sado, 
Não tenha receio, 
Até São Romão ,
Vá dar um passeio. 

Quando eu cheguei
À Rebêra do Sado, 
Vi lá uma preta 
De beco virado. 

Se tiver resposta 
Responda-me à letra 
De beco virado 
Vi lá uma preta. 

O Senhor dos Mártires 
Cá da Carvalheira 
É o pai dos pretos 
De toda a Ribeira. 
Lavrador João 
Quem lho diz sou eu: 
Se ele é pai dos Pretos 
Também o é seu. 


Esta presença negro-africana também se verifica nos topônimos de muitas ruas, como por exemplo: 

Rua das Pretas, Rua do Poço dos Negros … ou no nome de muitas povoações como no concelho de Vinhais existe a freguesia de S.Bartolomeu de Negredo, no de Barcelos a de Santa Eulália de Negreiros e o lugar chamado do Preto e no de Santo Tirso encontram-se S. Mamede de Negrelos, S.Tomé de Negrelos, Santa Maria de Negrelos. 


Vale de Negros é o nome de um povoado do concelho de Ancião, Pero Negro o de um outro no concelho de Arruda dos Vinhos. 


Nos concelhos de Montalegre e de Óbidos temos, respetivamente, as freguesias de Santa Maria Madalena de Negrões e como já dissemos, a de Negros ou A dos Negros. 

No concelho de Loulé há o lugar chamado Cerro dos Negros, no de Almeirim há uma povoação com o nome Paços de Cima ou dos Negros. 

Dois povoados dos concelhos de Albufeira e de Silves chamam-se Guiné, no concelho de Alvito existe a povoação chamada Horta de Guiné. 

A dos Pretos, Monte dos Pretos e Quinta da Preta são os nomes de povoações dos concelhos de Leiria, Estremos e Alcobaça, …, enfim, demonstra-se assim a importância que estas populações teriam em determinadas regiões para que servissem de referência a um determinado lugar. 


Não conseguindo estabelecer maiores pontos de contato entre a cultura africana e a portuguesa que subsistam e sejam detetados na nossa etnografia, fica aqui o nosso contributo para algo que nos parece importante, a presença dos Negros na nossa cultura. 


Certos ficamos de que nas nossas veias, circula um caldo de culturas e de povos, no qual certamente se encontra o africano. 


Bibliografia: 

Carlos Mário Alexandrino da Silva - A História que Portugal não conta.

e,
Maria Raquel R. Gomes, in “A Ilha de Pretos”: Análise da Fecundidade e Ilegitimidade na Freguesia de São Romão do Sádão entre 1679 – 1729 – parte I http://adpa.no.sapo.pt/neponlin.htm Álbum de Costumes Portugueses, 1888
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