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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Nos faziamos nossos brinquedos


Nós fazíamos
nossos brinquedos!
Fonte: http://www.reneguenon.net/nossosbrinquedos.html

Luiz Pontual



Aos muito jovens – referimo-nos aos menores de 40 anos – pode parecer inacreditável que os brinquedos um dia tenham sido construídos pelas próprias crianças! Mais ainda: este fato, hoje extraordinário, era comum bem depois dos brontossauros, isto é, até 1960 DC, aproximadamente; o fenômeno, portanto, alcançou a Bossa Nova e os Beatles...e não está inteiramente extinto, apesar de tudo.

Fomos privilegiados testemunhos desta “era”, quando seria inimaginável assistir a uma criança-construtora atirar à parede, enfastiada, um brinquedo, coisa hoje freqüente e mesmo aceita como “direito humano politicamente correto dos cidadãos de lª idade”, que exercem assim seu senso crítico democraticamente e com total liberdade!

Compreende-se que o brinquedo feito pela criança é parte dela e ninguém se atira à parede ou ao lixo, salvo os loucos; sua manufatura implicava necessariamente aprendizado, disciplina, coordenação, empenho e orgulho. Eram feitos a custo financeiro próximo do zero e os resultados, além de satisfatórios, extraordinários. Entre os “custos”, não mencionaremos algumas reprimendas por danificação aos utensílios domésticos, como facas, cabos de vassoura, tesouras e outros. Quem fez seus brinquedos – menino ou menina - sabe sim o que é felicidade.

Para saber mais, clique sobre mais informações, em letras pequenas, abaixo.



Não sabíamos, claro, o motivo pelo qual cada brinquedo “tinha a sua época”; simplesmente fazíamos e brincávamos... e isto era suficiente. Pipa, pandorga ou papagaio, ocupavam seus dois meses certos, quando as quatro estações do ano ainda se distinguiam claramente; eram meses de ares revoltos, contrastes de quente e frio, seco e úmido. Empinávamos e éramos empinados, ascendíamos às nuvens literalmente, guerreávamos nos céus - e estávamos realmente lá no alto!

Pensar que já fomos águias um dia...

Balão era São João, solstício de inverno (João- Janua Coeli cristão – a janela dos deuses ou a porta solsticial para o transcendente) ; dos brinquedos, era o que exigia maior número de colaboradores, com tarefas específicas e variadas, de acordo com a habilidade de cada um - e ninguém ficava de fora.

Havia tempo de bolinha de gude; neste caso a construção resumia-se ao preparo dos “campinhos” onde jogávamos, na escola ou perto de casa; através das esferas-planetas incrivelmente coloridos, viajávamos.

Havia tempo de pião (o fio da vida – o Sûtrâtmâ na doutrina Hindú – desenrola um mundo em rotação!) e por aí vai. Caso houvesse curiosidade em assinalar numa folhinha cada brincadeira em seu devido tempo, constataríamos surpresos certas “coincidências” (os termos mais corretos seriam correspondência e analogia) com datas marcantes do ano litúrgico Cristão e, como diria um velhíssimo sábio chinês, “tudo tem sua causa precisa e o que nos parece fortuito deve-se a desconhecermos seus verdadeiros motivos”.

As brincadeiras, assim, podem assumir uma dimensão inteiramente inusitada, ligada à cosmologia tradicional; cada uma delas nos foi transmitida oralmente e pertencem ao que se chama, às vezes com desprezo, de “folclore”, isto é, ao conjunto de conhecimentos depositados na alma popular, e que se reproduzem ao longo de séculos sem que sua essência simbólica seja alterada.

Um dos brinquedos mais simples que um menino construía era o “trator de carretel”, a partir de um elástico, um toco de vela, dois palitos de fósforo e um carretel de linha usado. Antigamente, os carretéis eram de madeira e nossas mães costuravam e bordavam em casa: tínhamos assim, à vontade, carretéis usados de formatos variados. Escolhido um, era preciso “dentá-lo” nas bordas com uma boa faca, para ter mais “tração”. O elástico passava (outra vez o sûtrâtmâ!) pelo furo do carretel, preso de um lado com um pedaço de palito e livre do outro junto a uma fatia de vela e um palito de fósforo inteiro. Dávamos “corda” no trator e ele saía explorando tapetes, sofás e almofadas, nas mais desafiadoras topografias. Grátis e interminável, pois substituíamos o que quebrasse: palito, vela, carretel ou elástico!

Mais adiante fazíamos o “caminhão com molejo”. Em outras eras, os caixotes de madeira, eram lacrados por fora com cintas de aço, com um cm. de largura; embalagens de madeira, pregos e fitas metálicas eram jogadas fora e isto constituía nosso material básico de construção. Recortado um retângulo de madeira, tínhamos o “chassi”; duas lâminas de aço paralelas em arco sustentavam o eixo traseiro (pedaço de cabo de vassoura); uma outra era fixada ao centro do eixo dianteiro, puxado pelas extremidades por um barbante longo. - Estava pronto (com ou sem carroçaria ou pintura) para transportar o que fosse em qualquer terreno, com suspensão e tudo!

Um pouco mais velhos, tínhamos o carrinho de “rolimã”, (rolamentos, para quem não sabe), obtidas de graça no refugo das oficinas mecânicas; o resto era madeira e mão de obra. Hoje, constatamos, estão quase inteiramente substituídos por instáveis “skates”... que são comprados prontos. Há pouco tempo, presenciamos num bairro de periferia, em São Paulo, uma turma de garotos pobres fazendo pequenas acrobacias com dois skates sem rodas, provavelmente recolhidos ao lixo; certamente não estariam nesta situação caso tivessem recebido as instruções orais de como construir um rolimã, inteiramente grátis. Além de muito mais veloz que os skates, é dirigível e estável, ao contrário destas bobagens caras e modernosas, que nada ensinam de verdadeiramente aproveitável.

Pipas (papagaios ou pandorgas) requeriam “tecnologia” própria. As varetas eram sempre de bambu, presente ao largo de ribeirões ou riachos, mais ou menos próximos de nossas casas; os mais velhos nos orientavam nos critérios a serem seguidos para sua seleção e corte. Havia muita sutileza nos critérios e até preciosismos, o que íamos aprimorando com a prática: este assunto sozinho mereceria um relato à parte. Mas...não resistimos a citar um exemplo: o bambu não deveria estar nem seco nem muito novo e seus nós – pontos de força e inflexão - deveriam estar posicionados corretamente tanto na vareta vertical (eixo – axis mundi - ascendente) quanto na horizontal (envergadura de sustentação).

Comprávamos papel de seda e linha nas mercearias, nos empórios ou nos armarinhos. A cola era caseira, a partir de farinha de trigo e água; era ‘grátis’, resistente e levíssima, quando bem aplicada. Quanto maior a perícia do construtor, menor a espessura das emendas e mais perfeitas as cores do papel de seda, que combinávamos intuitivamente, compondo o “brasão” pessoal da excelência de nosso ofício. Vivíamos tais cores e combinações (em arranjos estáticos ou dinâmicos, ascendentes ou expansivos, sintéticos ou espalhafatosos).

Éramos felizes herdeiros de uma tradição oral e prática e, claro, não suspeitávamos as teorizações e conhecimentos simbólicos das cores explicados por um Frédéric Portal em 1858. Ou o simbolismo Hindu do fio, como nos conta A. K. Coomaraswamy. Ou o simbolismo da cruz – pois toda armação de pipa é basicamente uma cruz - visto por Elish El-Kebir e narrado por Guénon!

Com a experiência, aprendíamos os ângulos exatos dos “tirantes” (as linhas que se prendem à pipa) para obter tal ou tal efeito acrobático; distribuíamos as proporções e os apêndices aerodinâmicos para o perfeito equilíbrio na ascensão e sustentação. O mais difícil trabalho de um artesão de pipas e o coroamento de sua perícia é a “raia”. Este tipo de pandorga não possui rabo e, portanto, seu equilíbrio é difícil e complexo: depende em grande parte da qualidade e ângulo de curvatura da vareta horizontal e todo o conjunto exige harmonia e coerência. A menor imperfeição condena o trabalho ao mais completo fracasso.

Quem se provasse capaz de construir uma raia, era um diplomado informal no ofício. Estava assim gabaritado a vender suas voláteis preciosidades aos colegas menos hábeis e a ter seu ponto na feira livre; com o apurado, poderia comprar linhas mais resistentes e uma ou outra ferramenta necessária. Era a consagração e o vôo supremos!

Era...

A urbanização levada a seu extremo petrificou quase inteiramente as cidades, “vencendo” e aniquilando a natureza; não há riachos ou ribeirões, portanto não há bambu; não há espaços ou campos abertos, nem se costura mais em casa... as feiras livres estão com seus dias contados. Tudo está “pronto” para consumir, nada a pensar (conceber) ou a fazer (realizar)...

O artesanato mirim e tudo o que isto implica na formação de um homem, foi substituído por brinquedos eletrônicos prontos para serem comprados e usados, sem que a criança tenha qualquer participação em sua idealização ou feitura. A criança consome e é consumida, (- será tão difícil entender a revolta que a leva a arremessar um brinquedo à parede?) sem ter passado pelas provas que determinariam seu amadurecimento e o verdadeiro valor de participar e ser participado por seu pequeno ofício.

Não será este um dos motivos pelo qual o paraíso do consumo – os EUA – ostente um mundo adulto majoritariamente imbecilizado, cujos brinquedos são cada vez maiores, mas nunca verdadeiramente “realizados”?

Voltaremos ao assunto falando do significado das “kachinas” (bonecas) entre os índios Sioux e Hopi.
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